Adversário Não é Inimigo

POLÍTICA & PODER

Ivanildo Sampaio

1/25/20263 min ler

Faz tempo que a desavença entre os poderes da República deixou de ser um caso isolado para ocupar o noticiário na imprensa, cada vez com maior intensidade. Na esfera nacional, o Governo do presidente

Lula, com minoria no Congresso, bate de frente com a Câmara dos Deputados e com o Senado Federal, em processo que só aumenta, com prejuízo para o País e a sociedade como um todo.

Com minoria no Congresso e negociações políticas mal conduzidas, com radicais de lado a lado e uma direita barulhenta , o presidente Lula sofre, além de boicote, atos de chantagem, como ocorreu com a indicação do nome do advogado geral da União, o pernambucano Jorge Messias, um evangélico de "ficha limpa" e saber jurídico, candidato a ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal.

A indicação foi sabotada pelo senador David Alcolumbre, do Amapá, acusado por adversários de "desmatador" e defensor de madeireiros. Messias, não importa sua biografia, não era o candidato de sua preferência. Esqueceu, talvez, que essa escolha cabe ao presidente da República, e não ao presidente do Senado. Na Câmara dos Deputados, o presidente Hugo Mota, órfão de liderança e viúvo de seguidores, viu duas vezes sua cadeira ser conspurcada por radicais bolsonaristas, que deveriam perder o mandato por falta de decoro.

O deputado baixou a cabeça, engoliu calado, perdeu o respeito da casa a partir daquele episódio. Noutra oportunidade, tímido e aparentando medo, o deputado Hugo Mota ouviu, calado, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, dizer, aberta e publicamente, que este era o "pior Congresso" que ele já viu e outras baboseiras. Hugo Mota, porém, sem se valer da importância do cargo outra vez ouviu calado as acusações.

Como parlamentar, pouco faz para ajudar o Governo e o `País.

A bem da verdade, tanto ele quanto Alcolumbre desejam mesmo, embora não digam, é reformar a Constituição e diminuir o poder dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, que consideram abusivo e exorbitante. Afastar Alexandre Moraes, o implacável. O resultado disso? O Congresso não aprova projetos enviados pelo presidente; o presidente veta projetos e propostas aprovadas pelo Congresso; o Congresso derruba o veto do presidente e esquenta a briga.

Enquanto o trem não anda, o país para e o povo sofre. Cá em Pernambuco, infelizmente, o Estado acompanha, impotente, a falta de diálogo entre o Poder Executivo e o Legislativo, numa escalada contínua, que preocupa e acena com prejuízo para os pernambucanos. Desde o início do mandato, a governadora Raquel Lyra e o deputado Álvaro Porto, presidente da Assembleia, vivem em confronto quase permanente, algumas vezes às claras; outras, agindo nos bastidores, mas em ambos os casos com prejuízos para o Estado.

Como resultado disso, projetos enviados pelo Governo para apreciação na Assembleia não caminham, ou caminham em passos lentos. Nos bastidores, deputados acusam Raquel de ser centralizadora e descumprir compromissos; já os aliados da governadora argumentam que esses críticos são aliados do prefeito João Campos, do Recife, que deverá disputar com Raquel o o Governo do Estado nas próximas eleições.

O mais recente ato da oposição foi apresentar na Assembleia Legislativa um pedido de "impeachment" da governadora. Pedido esse de autoria do deputado Romero Albuquerque, aliado, sim, do prefeito do Recife. Esse pedido tenta envolver a governadora no processo de fechamento da Logo Caruaruense, uma empresa de transporte intermunicipal, com sede em Caruaru, fundada pelo Patriarca da Família, o empresário e ex-deputado João Lyra, pai do também ex-governador João Lyra Filho que, por sua vez, é pai de Raquel. Bom lembrar que na Câmara Municipal o prefeito João Campos também é alvo de um pedido de Impeachment, acusado igualmente num episodio menor, que ele mesmo considerou de "oportunismo político".

Cumpre ressaltar que gestos pequenos não engrandecem a biografia de ninguém. E, queira ou não queira, tanto o prefeito Joao Campos quanto a governadora Raquel Lyra terão, na próxima campanha, seus nomes envolvidos nessas histórias sujas, desaprovadas por eleitores de ambos os lados. E lembrar que o impedimento de um executivo só deve ser votado diante de fatos graves comprovados - e mesmo assim com consequências Imprevisíveis. Não se deve esquecer que o impeachment da presidente Dilma

Rousseff na metade do seu mandato serviu para eleger gente como Carla Zambelli e, jogar, dois anos depois, o país nos braços de Jair Bolsonaro.

Portanto, senhores, vale lembrar aqui uma lição do governador Miguel Arraes para Seu filho, José Almino, então adolescente: pessoas que militam em campos políticos opostos não inimigos: são adversários.