Carta a Meu Pai
PERFIS & HISTÓRIA
Ivanildo Sampaio
4/19/19922 min ler


Rezo, agora, a minha oração desesperada — homilia do juízo final
Hoje, eu escrevo particularmente para você, meu pai. Escrevo a crônica da dor e da morte, amargurado na impotência para retomar a juventude precocemente interrompida, feita de conselhos, de carinho, de compreensão.
Hoje, eu escrevo para você, meu pai, com o travo da saudade, o amargo da descrença, a lágrima da perda definitiva. Escrevo como se esta fosse a minha oração desesperada — a homilia do juízo final. E me angustia ser o homem de pouca fé que sempre fui, tão diferente de você, crente e justo, amoroso e fiel, obediente e justiceiro.
Hoje, eu escrevo para você, meu pai, arrancando do peito as lembranças de antigos verões — quando a madrugada sertaneja nos abraçava a caminho do campo, eu, pequeno, agarrado à sua mão, o mais velho de irmãos já nascidos e de irmãos a nascer, que haveriam de ter em você a nossa estrela-guia pela estrada da vida.
Hoje, eu escrevo para você, pai, e não consigo lembrar onde guardei a velha gaita de boca que marcou a minha primeira infância, presente seu num dos natais que a família, sem posses, não comemorou. Procuro nos desvãos da memória em que invernos ficaram as bolas de meia que você ajudou a fazer — onde se escondem agora os Almanaques do Tico Tico, por onde anda o revólver de plástico que imitava Tom Mix.
Onde ficou, pai, aquela mão amiga, aquele sorriso cúmplice e solidário para o filho que enganava a mãe e saía a procurar a caça, a se perder nas matas, a desafiar os rios?
Vi você, àquela madrugada, dormindo o seu sono de justo. As mãos postas, o rosto sereno revelando a quietude da eternidade. Lembrei que faltavam apenas dois dias, escassas 48 horas, para que você encontrasse filhos e netos, dispersos pelo mundo e pela vida, para que, todos juntos, pudessem rezar, com você e com a mãe, a oração de graças pelos 50 anos de um feliz casamento.
Por que, meu pai, por quê?
Por que esta partida tão abrupta e tão inesperada a exatos dois dias da comunhão maior? Que misteriosos desígnios determinaram a mudança de sua caminhada?
Hoje, passados 15 dias de sua viagem, eu retomo aquele diálogo com você. As palavras estão escassas, as lembranças estão vivas — e doem muito. Por isso, vou ser breve: peço que daí, de onde você estiver, olhe pela mãe, que mais do que todos nós reclama sua falta — e continua tendo por você um amor tão puro, tão grande, e tão belo, que só ela é capaz de amar assim.
É noite, agora, e eu escrevo em casa, sentado no terraço. Uma réstia de luar desce sobre uma palmeira centenária que repousa quieta à minha frente. Daqui a pouco será madrugada. E lembro das nossas madrugadas sertanejas, minha mão agarrada à sua mão, esperando que o sol morno da manhã viesse nos envolver com o seu calor amigo, quando nós saíamos para inventar a caça e redescobrir o dia.