Fernando, Duda e Bandeira
PERFIS & HISTÓRIA
Ivanildo Sampaio
1/11/20264 min ler


Este mês de dezembro último, marcou o quinto ano da morte do jornalista Fernando Menezes, que na sua longa e brilhante trajetória dedicou quase toda sua vida produtiva ao mundo da comunicação, primeiro como profissional da imprensa, depois como professor de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, antes de ocupar, também, uma cadeira na Universidade Federal.
Fiel ao JORNAL DO COMMERCIO, onde começou sua vida profissional ainda nos anos 50 do Século passado, Fernando Antônio da Costa Menezes permaneceu nos quadros da empresa mesmo quando ela atravessou suas várias crises nas mãos de alguns aventureiros.
Muitos dos colegas seus não suportaram aquela incerteza permanente, procuraram novos mercados e atividades, não acreditavam na recuperação da empresa. Fernando resistiu - e lá ficou para testemunhar seu ressurgimento, que se viabilizou sob o comando do empresário João Carlos Paes Mendonça. Fernando voltou para para trabalhar na Redação, agora com uma equipe de jovens estagiários, e poucos profissionais, entre os quais alguns irreverentes, que o chamavam, sem cerimônia, de "Vovô Fernando". Todos eles o consultavam quando tinham dúvidas sobre os mais diversos temas, atuais ou pretéritos. Fernando, prazerosamente, atendia. Também absorveu, sem problema, o tratamento de "vovô".
Nesses tempos de mídia digital, de redações "enxutas", de tecnologias que aprimoram a apuração aceleram a produção do conteúdo jornalístico, as novas gerações fazem pouca idéia de como eram produzidos os jornais de então, atividade na qual Fernando Menezes foi um mestre.
Propriedade de F. Pessoa de Queiroz e sob o comando do jornalista Esmaragdo Marroquim, o Jornal do Commercio tinha, na sua Redação, além do jovem Fernando Menezes, o lendário Eugenio Coimbra, mestre da "velha escola", e nomes que se tornariam famosos para sempre na história da Imprensa de Pernambuco, como Wladimir Calheiros, Cristina Tavares, Isnard de Moura, Paulo Fernando Craveiro, Carlos Garcia, José do Rego Maciel Filho, Duda Guennes, Carlos Penna Filho, Alexandrino Rocha, Francisco Bandeira de Melo, Abdias Moura e tantos outros.
Cumpre registrar que quase todos esses jornalistas, em que pese seu talento e sua dedicação, viviam talvez a última fase de um jornalismo "mais romântico", pois quase todos, com raríssimas exceções, tinham outras atividades, já que a remuneração no mercado era quase irrisória. E isso não era um fenômeno de Pernambuco: era era assim no mercadão nacional, injustiça que começou a ser combatida pelo jornalista Samuel Wainer, que com o jornal Ultima Hora, no Rio de Jáneiro, aumentou salários, sacudiu o mercado nacional e obrigou os concorrentes a adotar a mesma política.
Tive o prazer e a oportunidade de dirigir, por quase 30 anos, a Redação do JC, pela qual trafegaram tantos nomes da rica Imprensa de Pernambuco. Dois desses nomes foram amigos e contemporâneos de Fernando Menezes, e também já se foram: Francisco Austerliano Bandeira de Melo e Eduardo Guennes Tavares de Melo, ou simplesmente Duda Guennes, ídolo da Imprensa de Portugal e Cidadão do Mundo.
Foi Fernando Menezes quem me convenceu a trazer Duda para a Redação do Jornal do Commercio. Eram amigos desde os tempos de colégio, Duda havia deixado o Recife para atuar na Imprensa carioca e, com a Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura de Salazar, em Portugal, ele foi para Lisboa como correspondente de "O Pasquim", o irreverente jornal de humor que fazia sucesso no Brasil e também combatia a ditadura militar.
Sem que nos conhecêssemos, Duda Guennes "virou" o homem do Jornal do Commercio em Portugal. E que belas matérias produziu, inclusive cobrindo, em tempo real, o incêndio que devastou barros históricos de Lisboa, como parte do Chiado, onde mais tarde ele mesmo iria residir, e, já doente, receber um crônica do escritor Mia Couto, cujo titulo foi exatamente "O brasileiro do Chiado".
Foi Duda, pesquisador incansável de velhas publicações, quem descobriu ser Santo Antônio um Sargento da Policia de Pernambuco desde o Brasil Colonial, com direito às regalias do cargo e uma remuneração mensal. Não se sabe se o Estado estava honrando o compromisso nem quem recebia a remuneração em nome dele.
Francisco Bandeira de Melo, o "Bandeirinha", escritor, poeta, intelectual, assessor de Josué de Castro no exterior, Ex-Secretário de Turismo do Estado de Pernambuco na gestão de Marco Maciel, era, assim como Fernando, um grande amigo de Duda, mas de temperamento exatamente inverso: abstêmio, reservado, de voz baixa e mansa - os amigos diziam que ele "parecia com São Domingos Sávio". Durante alguns anos Bandeira escreveu belos e oportunos artigos das páginas de Opinião deste jornal, e assim como Duda, trazido por Fernando Menezes. Só parou quando a saúde não mais lhe permitiu escrever.
Fernando Menezes se foi aos 86 anos, após uma parada cardíaca. Francisco Bandeira de Melo partiu aos 75 anos. E não viu o filho, desembargador e também Francisco, chegar ao ponto máximo da carreira e presidir i Poder Judiciário; Duda Guennes se foi aos 74 anos, morando em Lisboa, pai de uma única filha, vitimado por um tumor maligno no estômago. Deixou uma única filha, nascida em Portugal, chamada Dôra.
Pernambucano fiel, Duda pediu que, depois de sua morte o corpo fosse cremado e suas cinzas traídas para Recife e jogadas nas Aguas do Capibaribe. A filha atendeu seu último pedido. Três amigos, três jornalistas que honraram a profissão e integraram a equipe da redação do Jornal do Commercio -três nomes que ficarão eternizados na História da Imprensa de Pernambuco.