Meu Irmão Hildebrando
PERFIS & HISTÓRIA
Ivanildo Sampaio
7/5/20123 min ler
A lembrança mais antiga que guardo do meu irmão Hildebrando remonta a uma noite de Natal escondida nos tempos mais perdidos, quando o pai chegou em casa trazendo duas pequenas caixas de presente, dizendo que tinham sido enviadas por Papai Noel. Havia em cada caixa, exatamente iguais, uma gaita de boca, nas quais começamos a soprar e tirar delas um punhado de sons desconexos, a perturbar a paz de nossa mãe, que zelava pelo descanso do outro filho menor, então caçula e ainda de berço. Hildebrando tocou a gaita até ser vencido pelo sono – e dela não se separou por muito tempo, até que um dia resolveu lavá-la com água e sabão, a gaita ficou rouca e quase emudeceu, ele se pôs em prantos e nunca mais quis outra gaita de presente.
Não sei, não conheço, nunca ouvi falar de alguém mais solidário do que Hildebrando Sampaio, enquanto a saúde permitiu. Muitas vezes, levantou nas madrugadas frias do Sertão para aplicar injeções em pacientes mais necessitados, com a mesma presteza com que saía para ensinar a um forasteiro onde ficava a prefeitura, o hospital municipal, a residência do prefeito, do padre ou do coletor municipal. Quando morou em São Paulo, trabalhando numa das maiores redes de farmácias do País, e eu vivia no Rio, fui visitá-lo uma vez. Estava casado, a mulher esperava sua única filha, ele me recebeu com tratamento VIP, numa casa modesta mas decente: bebemos uísque, jantamos, falamos da família, deu-me o endereço de um tio que há muitos anos morava lá, era major da Polícia Militar. Mas aconselhou: tem cuidado com a mulher dele, ele é major, mas lá quem manda é ela. Só fui conhecer o tio noutra oportunidade, mas deduzi que Hildebrando tinha toda razão, na casa quem mandava era ela.
Disse várias vezes e estou hoje muito mais convicto de que a vida foi uma madrasta má para meu irmão. Conta a minha mãe que as dificuldades dele já começaram no parto, quando demorou a nascer e certamente teve falta de oxigenação, talvez fator determinante na gagueira que o perseguiu por toda a existência. Mesmo assim, foi um menino bonito que os vizinhos elogiavam, era inteligente, criativo, dedicado ao que gostava de fazer. Concluiu o curso médio, mas sabia que teria poucas chances de chegar à universidade. Ser o único não "formado" na família de 10 irmãos fazia com que carregasse um sentimento de culpa, o que só externava quando havia bebido além da conta. E beber, beber muito, foi o que ele fez desde os melhores anos de sua vida até os seus últimos dias. Mesmo assim, teve várias namoradas, casou duas vezes, foi infeliz nas duas uniões, certamente a bebida contribuiu para que ambas fossem desfeitas, restando como consolo a filha da primeira mulher, por quem ele tinha verdadeira devoção. Lembro-me de que fui visitá-lo num dos seus muitos internamentos, numa clínica em Vitória de Santo Antão. Levei frutas, biscoitos, cigarros e revistas, como ele havia pedido. Perguntei por Patrícia, a filha, que já há algum tempo morava no Estado de Tocantins. Ele ficou em silêncio, abriu o armário, puxou uma valise e tirou de dentro uma foto da filha. Olhou para a foto com os olhos marejados e perguntou apenas: "Não é linda?" Quando estava numa das suas piores fases, nós, os irmãos, quase à força, resolvemos interná-lo numa clínica especializada, esperando que a terapia e a desintoxicação devolvessem a ele o prazer de viver. Durante 40 dias ele se manteve abstêmio, interagia com os demais internos, assumia tarefas comunitárias que lhe pareciam prazerosas. Recebeu alta e muitos conselhos. No dia seguinte, bebeu como se quisesse resgatar todo o período de internamento. E, contra todos os conselhos, contra todos os pedidos, contra todas as ponderações continuou bebendo, resignadamente, no seu silêncio e sua solidão.
A última vez que o vi, guardei a certeza de que Hildebrando, meu querido irmão, não viveria muito: magro, alquebrado, as pernas cheias de chagas, a cor cinzenta denunciada pelo mau funcionamento do fígado. E o olhar de tristeza que o acompanhava há muito tempo. No último domingo, em casa da mãe, ele se foi. Placidamente, como morrem os passarinhos. O único pecado que cometeu em vida foi contra ele mesmo – e certamente há muito tempo já fora perdoado por Deus, que certamente reservou para ele um bom lugar.