Olha o Guia, Outra Vez

POLÍTICA & PODER

Ivanildo Sampaio

2/8/20263 min ler

Mais alguns meses e estaremos, todos nós, brasileiros de todas as cores todos os credos recebendo, em nossas casas, sem ter encomendado, uma nova campanha política com seus

"Guias Eleitorais", escondendo dos candidatos a cargos eleitorais todos os seus defeitos, Enaltecendo qualidades, que quase sempre não possuem. Entram na intimidade de cada família sem serem convidados, seja você de esquerda , de direita, ou simplesmente apolítico, apenas mais um cidadão que pensa em votar, para cumprir um dever cívico.

Mas, vem de longe essa instituição do sistema, chamada "Guia Eleitoral", que nasceu feio e pobre, durante algum tempo foi mudo, e foi mudando ao longo de cada processo, melhorando a qualidade visual e acompanhando a evolução da tecnologia - embora com poucas chances de convencer o eleitor mais esclarecido.

Por conta dos vários lugares onde trabalhei ao longo de minha vida profissional, acompanhei, algumas vezes, a produção de campanhas politicas e guias eleitorais, quase sempre sem me envolver diretamente com os candidatos, exceção apenas na campanha majoritária para o Governo de Pernambuco, que elegeu Roberto Magalhães, em 1982.

O derrotado foi o ex- senador Marco Freire. Quatro anos depois, também participei da campanha de José Mucio Monteiro, também candidato ao Governo do Estado. José Múcio perdeu; o vencedor foi Miguel Arraes, uma vitória mais do que esperada desde o início da campanha, quando o país vivia os ares da redemocratização e o povo devolvia ao governador o mandato que o Golpe de 1964 injustamente lhe tirou. Não vi, não conheço, nunca tive notícias de campanhas eleitorais que, aqui e ali, não apelasse para o engodo, as verdades pela metade, as agressões gratuitas, os ataques pessoais, "golpes sujos" muitas vezes praticados sem conhecimento do candidato, pois sabe que ele também pode ser queimado com o mesmo ferro.

Na campanha de 1982 pelo Governo do Estado, muitas vezes a "baixaria", o "jogo sujo" e os ataques clandestinos atingiam a vida privada do candidato Marcos Freire, de forma criminosa e covarde. Eu vi, mais de uma vez, o seu adversário, Roberto Magalhães, se indignar com esse tipo de comportamento e enviar mensagem de solidariedade ao seu adversário.

E vi muitas coisas erradas em Guias Eleitorais, como, por exemplo, a derrota de Sergio Murilo para Jarbas Vasconcelos na disputa pela Prefeitura do Recife, a primeira que se realizava depois de 1964, quando os prefeitos de capitais passaram e ser escolhidos pelos governadores. Sergio Murilo liderava com folga as pesquisas eleitorais até uma semana antes do pleito.

Um Guia Eleitoral mal produzido, onde ele dava muito mais espaço para os apoiadores aparecer do ele mesmo aparecia, em apenas quatro dias derrubou a vantagem e entregou a vitória a Jarbas Vasconcelos, que venceu por uma diferença mínima um pleito extremamente disputado.

Embora os guias eleitorais sejam hoje produzidos por alguns dos melhores profissionais do mercado, pois com os bilionários Fundos Partidários não já crise para os candidatos, mesmo os melhores "marqueteiros" não conseguem fazer milagre: candidato feio vai continuar feio, candidato de Q.I. baixo não fica mais inteligente diante de uma câmera.

Tenho cá, comigo, algumas lembranças da ultima campanha para a Prefeitura do Recife, e o desempenho, no Guia, de alguns candidatos. Havia um, apoiado pela governadora Raquel Lira, que negava ações do poder municipal especialmente nos morros do Recife. Falava que existiam duas realidade; uma que a propaganda oficial mostrava e outra, que escondia as mazelas e carências de cada comunidade.

Foi mal. Foi mal. Esse candidato ficou em último lugar entre todos os candidatos que disputaram

a Prefeitura, com votação inferior à candidata do PSOL, que nunca foi um campeão de votos na cidade do Recife.

Havia outro candidato, "bolsonarista de raiz", que aparecia com ar de tristeza ao lado de Michelle Bolsonaro, e prometida que, se eleito, mandaria arrancar algumas poucas arvores que ainda produzem um resto de sombra nas principais avenidas de Boa Viagem, para " melhorar o tráfego de automóveis". Devia ser candidato a guarda de trânsito e não a prefeito da cidade. Mesmo apelando para a imagem de

Bolsonaro, que na época ainda estava em liberdade, ficou entre os menos votados na disputa.

Pois bem, não há como fugir. A televisão vai transmitir o Guia com tudo de ruim que algumas vezes ele mostra. Teremos eleições em várias instâncias, para escolher desde o futuro Presidente da República até o vereador que já foi "inspetor de quarteirão". E o guia, Democraticamente, vai transmitir, diariamente, o que não tem e dizer cada um desses novos astros da televisão brasileira. É ligar ou largar...