Os defeitos de cada um

POLÍTICA & PODER

Ivanildo Sampaio

3/29/20264 min ler

Estamos há menos de um ano para a realização de eleições gerais, quando serão escolhidos além de um novo Parlamento, os futuros governadores de Estado e o presidente da República, conforme manda o calendário eleitoral. Para a Presidência da República, embora não tenham ocorrido as convenções partidárias, estão postas nas ruas, de forma irreversível, as duas candidaturas com reais chances nessa disputa pelo Poder: Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta seu quarto mandato; e Flavio Bolsonaro, senador da República e herdeiro do espólio do pai, Jair Bolsonaro, que o escolheu como sucessor, frustrando outros pretendentes. Políticos mais credenciados e representativos. Candidatos "nanicos", até agora, ainda não se apresentaram. Mas, se aparecerem, terão poucas chances.

Preso e com a saúde fragilizada, Jair Bolsonaro não se entrega: a escolha de Flávio foi feita por ele, sem ouvir partidos nem seguidores, nem mesmo sua mulher, Michelle, que sonhava ser candidata. Ou os governadores Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ratinho Junior, que, com a decisão de Bolsonaro, parece terem desistido da disputa. Caiado ainda é o mais resistente - mas tem poucas chances de viabilizar a candidatura.

Depois de novo internamento, por conta da saúde cada vez mais fragilizada, essa situação lamentável do ex-presidente tem sido, de forma direta, uma impulsionadora da candidatura do filho, que aparecia como um "azarão", mas não para de crescer nas pesquisas de opinião realizadas. Enquanto o presidente Lula, com um discurso "mofado", e uma queda continuada de aprovação nessas mesmas pesquisas, luta para se livrar das mais diversas suspeitas de corrução, que vão desde o escândalo da Previdência, às relações do filho, Lulinha, com personagens de "ficha suja" e envolvidas nessa mesma sujeira que tomou conta do pais.

Mas, o que chama atenção nesse tempo de pré-campanha, são os discursos que permeiam cada candidatura. Não se sabe, até hoje, quais as propostas e os projetos do presidente Lula nem do senador Flávio Bolsonaro, para governar um País com tantos problemas, tantas cobranças e tantas contradições. Sabe-se apenas que tanto um quanto o outro, esmeram-se apenas em lembrar casos de corrupção nos quais os dois estiveram ou estariam envolvidos.

O senador Flávio Bolsonaro vai no fundo do baú, e traz de volta a prisão de Lula, em Curitiba, acusado de vários crimes de corrupção, no lamentável caso da "Lava Jato", que permitiu ao então juiz Sérgio Moro praticar todo tipo de arbitrariedades. "Bolsonaristas" apoiadores da candidatura do senador, lembram que o "caso" do Sítio de Atibaia, que o presidente Lula teria adquirido de forma irregular, não foi encerrado; que Lula nunca foi considerado inocente, que o processo apenas ocorreu no foro indevido e por isso foi anulado.

Já os "marqueteiros" do presidente Lula vasculham o fundo da gaveta para lembrar suspeitas de casos de "rachadinha" de Flávio Bolsonaro, quando ainda era deputado, se apossando indevidamente de parte da remuneração dos funcionários do seu Gabinete parlamentar. Trazem de volta suas relações com policiais integrantes de milícias, ligadas ao crime no Rio de Janeiro. Colocam suspeitas contra uma loja de chocolates da qual Flávio se desfez, e de um imóvel que adquiriu na capital federal, cujo valor seria incompatível com seus rendimentos. E fica a velha história - "Se eu sou corrupto, mas você também é"...

Até agora, nenhum dos dois candidatos disse quais são seus projetos para equilibrar as contas públicas, que esta gestão de Lula escancarou; como tirar da crise as Universidades Federais, algumas ameaçadas de paralisação, crise esta iniciada ainda na gestão de Jair Bolsonaro; como melhorar os índices nas áreas de saúde, de transportes, da educação como um todo. Nem como combater a violência, temor de todo brasileiro. Nem a corrupção, que se alastra.

Neste país de 200 milhões de habitantes, são poucos aqueles que, como Jair Bolsonaro, viveram os anos trágicos da ditadura militar e têm saudades deles. Eu não tenho, nunca tive. Foram tempos de terror, de tortura, de perseguição, de silêncio e de medo, que se estenderam por mais de duas décadas.

Mas, por uma questão de justiça, deve-se dizer que, nesses anos de chumbo, muito pouco - ou quase nada - se falava em casos de corrupção no Poder Público, como se vê agora. De governadores que desviavam recursos do Erário, de emendas parlamentares sigilosas, de roubos na Previdência e escândalos no sistema bancário, com ajudas oficiais. De desvios no sistema previdenciário.

De corrupção no Banco Central. De ministros do Supremo envolvidos com empresários desonestos. Ou com suas esposas recebendo milhões de reais de instituições que seriam punidas por desonestidade, como aconteceu com o Banco Master.

Em Pernambuco, por exemplo, governaram o Estado naquele período de escuridão Paulo Guerra, Nilo Coelho, Eraldo Gueiros e Marco Maciel - e não há notícia de que um único deles tenha deixado o poder em situação melhor do que entrou. Eram homens de classe média - e na classe média continuaram.

Lembro bem que, no Plano Federal, o coronel Mario Andreazza, ministro dos Transportes de dois Governos militares e tocador de obras, tinha fama, injustificada, de receber "propina" das grandes construtoras. O poderoso ministro Delfin Neto era visto como "parceiro oculto" dos grandes empresários e da poderosa Federação das Indústrias de São Paulo. Isso se comentava à boca pequena, longe dos olhos da Imprensa. Sem nenhuma prova dessas suspeitas, todas injustificadas.

Longe do Poder e já na reserva, Mário Andreazza faleceu em São Paulo. Para sepultá-lo no Rio de Janeiro, onde vivia parte de sua família, os amigos se reuniram para arcar com as despesas do traslado do corpo. A família não tinha condições de bancar esses custos. Já Delfin Neto, fora do governo continuou trabalhando, fazendo palestras, residindo em São Paulo, um cidadão de classe média que sempre foi.

Pois bem, o País está a espera de novas eleições, e o que pretende fazer aquele que for Eleito para o cargo maior da Nação, seja ele Luiz Inácio da Silva ou Flávio Bolsonaro. Embora haja quem diga, com alguma razão "que daria um pelo outro sem exigir trôco".

Esperemos pra ver.