Os Velhos Carnavais
SOCIEDADE & CULTURA
Ivanildo Sampaio
2/15/20263 min ler


Sou saudosista, sim obrigado - dói saber que tantas coisas que antes eu evitava e criticava, estavam perpetuadas na memória, como uma mensagem do além alertando para a controvérsias nossas de cada dia. Trabalhar no Carnaval, por exemplo, era uma das tarefas que e abominava...
Vi carnaval nas pequenas cidades do Interior - mas vi desfiles das Escola de Samba no Rio de Janeiro, quando aquilo ainda era uma festa ´popular produzido pelo povo e para o povo - e não um negócio lucrativo e elitista , embora ainda encante e cative multidões, porque a batida do samba continua imbatível.
Vi bailes famosos, como o do Teatro Municipal, no Rio de Janeiro; ou o baile do Hotel Quitandinha, em Petrópolis.
Naquele mesmo local, anos antes, funcionou um dos mais famosos cassinos do Rio, até que o Presidente Eurico Dutra acabasse com o jogo e a segurança alimentar de 400 mil brasileiros que trabalhavam nessa atividade. Atendeu um pedido feito pela mulher, dona Santinha, a primeira-dama do País, que considerava o jogo uma atividade pecaminosa.
Pois bem, coberturas de carnaval eu fiz muitas nos anos 60 e 70 do século passado, quando o jogo já fôra banido há vários anos. (O "pecado" , agora, ia dar trabalho a Dona Santinha: voltou mais abrangente e sofisticado, com muitos políticos tirando proveito das "Bets" da vida).
Pois bem, trabalhando e morando no Rio de Janeiro, acompanhei o desfile das Escolas de Samba, antes do "Sambódromo", criado pelo governador Leonel Brizola., para burocratizar o samba e irritar Roberto Marinho. Até então, elas desfilavam na Avenida Presidente Vargas, com algumas regras plenamente toleráveis e uma Comissão Julgadora que indicava a campeã de cada ano.
Mas, antes disso, também acompanhei e trabalhei na cobertura do Carnaval de Pernambuco, especialmente os bailes "pre-carnavalescos", alguns deles de fama nacional, realizados pelos Clubes Internacional e Português.
Bailes que exigiam "fantasias" ou "traje a rigor" para ingressar no recinto - e que traziam "carnavalescos" de várias partes do País, entre eles nomes famosos De outros carnavais, como os cariocas Evandro de Castro Lima, Clovis Bornai, Zacarias do Rego Monteiro e Wilza Carla, as cantoras Marlene e Sonia Delfino, "estrelas" do chamado "Teatro de Revista" e tanta gente mais.
Filhos e filhas de usineiros, que comandavam a economia do Estado, tinham presença cativa nesses bailes. Jornalistas do Sul vinham a Pernambuco Para cobrir esses eventos, que ganhavam destaque na Imprensa nacional.
Lembro-me bem de um "Baile Municipal", patrocinado como sempre pela Prefeitura do Recife, realizado pelo Clube Português. Havia desfiles nas categorias "luxo" e "originalidade". E bota "originalidade" nisso. No ano anterior, a vencedora na categoria "luxo" fora uma jovem carioca que havia desfilado com uma fantasia cujo nome era "As Neves do Kilimanjaro", embora - creio eu - noventa por cento dos ali presentes não soubessem o que era nem como era o "Kilimanjaro".
Explicou-se, posteriormente, que se tratava de um monte famoso nas terras ,perdidas de algum país africano. Teve um publicitário famoso que disputou o título de "originalidade" desfilando com
Um macacão branco onde, nas costas, em letras maiúsculas, estava escrito: POLICIA SECRETA PORTUGUESA.
Pois bem, ´para nadar nessas águas turbulentas, eu e o repórter Frederico Vasconcelos, com os fotógrafos Alcir Lacerda, Nelson Santos e Raimundo Costa, todos trabalhando na Revista Manchete, fomos escalados para cobertura do Baile Municipal. Todo material, texto e fotos, deveria ser enviado na manhã do domingo, em malote especial para a sede da revista, no Rio.
Um dos vencedores do desfile, no Clube Português, foi o pernambucano Múcio Catão, maquiador, que desfilou com uma fantasia denominada "Santos Dumond", onde ele próprio copiava com criatividade o "Pai da Aviação": roupa da época, chapéu, bigodinho postiço, em tudo Mucio revivia Albert Santos Dumond. E desfilava carregando no ombro um pequeno balão.
Como foi o vencedor no Recife na categoria "originalidade", foi automaticamente selecionado Para participar, no Rio de Janeiro, no desfile, também famoso, do baile do Copacabana Palace. Foi mal: o júri decidiu pela sua eliminação logo no início.
Ao ser entrevistado, queixou-se de ter Ido boicotado por concorrentes desleais, que danificaram parte de sua fantasia e ele teve que, segundo afirmou, "desfilar com o meu balão furado." Manchete do Dário da Noite, aqui no Recife: 'MUCIO CATÃO DESFILA COM O BALÃO FURADO".
Crime que ele não sabia a quem atribuir. Víamos, muitas vezes, foliões dormindo nos assentos confortáveis dos camarotes, cenas de ciúme de uma mulher dominadora em cima do marido folião - e tantas coisas que só os carnavais de outrora sabiam oferecer.
Também vi um governador de Pernambuco, desacompanhado da primeira dama, comandando uma farta mesa no antigo Clube Atlético de Amadores, onde era terminantemente proibido a entrada de jornalistas em serviço, e menos ainda se carregasse uma máquina fotográfica.
Vi Nelson Ferreira regendo orquestras, Claudionor Germano animando bailes, mulheres belas e outras nem tanto dividindo democraticamente o mesmo espaço dos salões animados dos carnavais de outrora. Na época, aquilo entediava, especialmente quem lá estava trabalhando. Hoje, um travo de saudade mostra como eram poéticos os carnavais de outrora.