Um Homem Justo
PERFIS & HISTÓRIA
Ivanildo Sampaio
11/24/20192 min ler


Quando teve duas ações penais ajuizadas contra ele, uma por danos morais outra por injúria e difamação (ambas depois arquivadas pelo Tribunal de Justiça) eu liguei para ele e coloquei à sua disposição o Departamento Jurídico da empresa, que contava com grandes profissionais, entre eles o professor Aurélio da Boaviagem, mestre de gerações e seu ex-professor na Faculdade de Direito da UFPE.
– Obrigado, mas não quero. Vou me defender por aqui. Se for o caso, contrato um advogado e pago do meu bolso, mas não quero colocar a empresa nisso...
E não quis.
O querelante havia contratado dois dos nomes mais expressivos do Direito em Pernambuco, os professores Romualdo Alves e Sílvio Neves, ambos também seus ex-professores na mesma Faculdade de Direito. Ele recorreu ao seu amigo Arthur Carvalho, que leu o processo, viu "que o Direito era bom", patrocinou a defesa sem cobrar honorários, a Justiça mandou que os dois processos fossem arquivados.
Muitos anos depois esse mesmo desafeto que o processara, demonstrando real interesse em reativar pelo menos o relacionamento – procurou-me para, se possível, ser a ponte entre os dois, para um reencontro e o fim dessa desavença, que durava anos. Fui a ele e propus um almoço entre nós três, promovido por mim.
– Obrigado, mas prefiro deixar como está: ele lá e eu aqui. Não guardo mágoa, não falo mal dele, mas não esqueço que ele usou o peso do cargo que ocupava para ajuizar dois processos contra mim – ambos arquivados no TJ. Mas, para não parecer que me recuso a aceitar uma mão estendida, me dê um tempo. Não é uma decisão para ser tomada agora.
Fiel ao seu estilo e com a mesma coerência, "deixou tudo como estava" – e se foi sem mágoa e sem rancor, mas com sua elegância simples e sua dignidade.
Ao sentir que não teria muito tempo de vida, mesmo sem nunca ter perdido a esperança e continuar lutando à espera de um milagre, ele chamou o filho, acadêmico de medicina, a perguntou se era possível quitar débitos futuros da Faculdade, até o final do curso. Não era. Ele pagou o que restava da anuidade, e garantiu os recursos necessários para pagamento dos anos vindouros. Não tinha bens pessoais – mas garantiu um imóvel para cada um dos dois filhos, ambos comprados com o dinheiro que ganhou muito mais com sua Banda e o seu saxofone, do que com o jornalismo digno que sempre praticou.
Deus lhe deu a graça de ser testemunha de muitos acontecimentos políticos que marcaram a história recente de Pernambuco – e muitos ele guardou para si, quando alguns personagens lhe pediram o "off". Tenho orgulho de ter tido Inaldo Sampaio como irmão, um homem justo, correto, bom pai, bom filho, bom marido e extraordinário jornalista, que morreu uma semana antes que seu único neto completasse o primeiro ano de vida.