Uma Edição Muito Especial

MEMÓRIAS DE REDAÇÃO

Ivanildo Sampaio

3/8/20264 min ler

Foi limpando gavetas e rasgando papéis velhos que encontrei, perdido no meio de outras coisas igualmente descartáveis, um exemplar do JORNAL DO COMMERCIO, dos tempos antigos do jornal impresso, das redações barulhentas e da busca pelo "furo".

Trata-se de uma "edição especial", comemorativa dos seus 90 anos de existência, que ocorriam naquela sexta-feira, 03 de abril do ano distante de 2009.

O Jornal, fundado em 1919, completava 90 anos, forte, pujante, admirado, dando provas de resiliência, plenamente recuperado após enfrentar diversas crises, até ser adquirido pelo empresário João Carlos Paes Mendonça.

Aquela foi uma edição "gorda", bem ilustrada, cheia de anúncios onde, na capa, o Diretor de Redação escrevia: - "Esta Edição Especial que hoje chega aos leitores conta um pouco do que foram o Brasil e o mundo ao longo de nove décadas. Fala dos tempos conturbados da segunda guerra e de momentos de esperança trazidos pela paz. De avanços. De sonhos e utopias. De conquistas que mudaram o caminhar da humanidade. E de como mudou o JC ao longo desse tempo".

O Jornal não poderia prever que menos de duas décadas depois chegaria ao Poder, nos Estados Unidos, um presidente belicoso que desde os primeiros dias do seu mandato tem ameaçado a paz mundial, e que a cada dia que passa revela sua insaciável sede de poder, com o olho ambicioso sobre as riquezas de outros países.

Nesse Caderno Especial, que agora tenho nas mãos, os textos vão revelando, passo a passo, a longa caminhada percorrida, lembrando que no dia 07 de março de 1920 o JORNAL DO COMMERCIO havia se tornado o segundo do Brasil a contar com uma rotativa norte-americana de última geração, com capacidade de Imprimir 30 mil exemplares por hora! Também foi o JC quem publicou as primeiras fotos mostrando a miséria que se arrastava no Interior do Ceará, provocada por uma seca que deu inicio a uma diáspora que se arrastaria por um longo tempo.

Essa Edição Especial, que agora tenho comigo, e que circulou no dia 03 de abril de 2009, - há quase 17 anos portanto - exala um cheiro de saudade com todos as cores do ´passado.

Para os que desconheciam a historia gloriosa do Jornal do Commercio, essa Edição Especial lembrava aos leitores de então que entre seus colaboradores , ao longo da história ,estiveram nomes como Bernard Shaw, Trotsky, Churchill, H.G. Wells, Upton Sinclair, Aldous Huxley e Gabriela Mistral, para citar os "estrangeiros". Entre "os de casa", escreveram para o JC nomes como Josué de Castro, Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Mario Sette, Joaquim Cardoso e Carlos Drummond de Andrade. Numa página desse caderno especial, uma "manchete" em seis colunas relembra "O Primeiro renascer". Foi a primeira edição produzida depois de quatro anos fora de circulação, no dia 30 de setembro de 1934, depois de ter sido totalmente destruído como uma das consequências da Revolução de 1930. E trazia novas seções, entre elas uma página dedicada ao público feminino, produzida por Lucie Seguier, cujo título era "Modas de Paris'.

Esse Suplemento lembra também que o Jornal do Commercio abriu espaço para grandes ilustradores, como Zuleno, Luis Jardim e Manuel Bandeira, não o poeta, mas o artista plástico. Encontro, num dos Cadernos, várias paginas dedicadas à década de 1950, com o justo título de "Anos Dourados". Mas, o texto lembra que esses anos não foram, para o Nordeste, tão "dourados" assim: para fugir da seca, foram embora para o Sul do País, especialmente para São Paulo, cerca de 300 mil nordestinos por ano, todos viajando em "Paus de Arara", que eram os caminhões cobertos por uma lona , com fugitivos se amontoando numa carroceria, coberta e desconfortável.

Entre esses fugitivos, em busca de uma vida menos difícil, se foi, com os filhos pequenos, Dona Lindu, a mãe de um menino chamado Luis, que muitos anos mais tarde seria torneiro mecânico, líder sindical e terminaria Presidente da República, por três vezes.

Esse Suplemento tem, também, um texto assinado pelo presidente da Empresa, João Carlos Paes Mendonça, que num dos parágrafos registrou : - "Aos 90 anos, o JORNAL DO COMMERCIO é líder absoluto de circulação no Estado; um veículo que não se coloca a serviço de grupos ou facções - mas que mantém compromisso sereno e permanente com a sociedade, defendendo as causas mais justas da democracia, da livre iniciativa e do empreendedorismo, numa identidade permanente com as coisas de Pernambuco". E isso nunca mudou.

O texto do Presidente não fala, mas naquela época o JC já acumulava dezenas de prêmios pelo bom jornalismo que praticava, ganhando, no plano nacional, duas vezes o "Premio Esso", o maior e mais cobiçado do jornalismo brasileiro.

Vou revendo o Suplemento e tentando lembrar dos profissionais que trabalhavam comigo e Ali estavam, com seu suor e seu talento. Uns, com seus nomes nos créditos finais do trabalho, como Laurindo Ferreira, que já era diretor-adjunto da Redação e lhe caberia, mais tarde, conduzir a caravana. Outros, não foram citados, porque foram apenas consultores e conselheiros na efetivação do projeto.

Produziram os textos daquela edição especial os jornalistas Jodeval Duarte, Marcelo Pereira , Maria Luiza Borges e Otávio Toscano, este último falecido ainda jovem. Como também faleceram os companheiros Fernando Menezes, José de Souza Alencar, Juracy Andrade, Paulo Sérgio Scarpa, José Gonçalves Oliveira e Abdias Moura - todos presentes, de forma direta ou indireta, na construção do Suplemento que marcou os 90 anos de um jornal impresso que, sem interrupção, mudou para o formato digital. Mas, que dava orgulho trabalhar naquele jornal impresso, isso dava.

E como dava....