Uma Paixão Antiga
SOCIEDADE & CULTURA
Ivanildo Sampaio
2/11/20143 min ler


Para usar uma imagem de Nelson Rodrigues, confesso que sou tricolor 40 anos antes do Paraíso. Sou tricolor desde quando ainda vestia calças curtas, e ouvia pelo rádio a transmissão do Campeonato Pernambucano de 1957, que o Santa Cruz conquistou em março de 1958, numa partida memorável em que, por 3 a 2, bateu o Sport na Ilha do Retiro. (Antes, já havia derrotado o Náutico por 3 a 1, três gols de Lanzoninho, jogando nos Aflitos, peleja que também ouvi, com o ouvido colado no velho rádio Galena de nossa casa, lá nos confins do Sertão de Pernambuco). Pois bem, o Santa não se tornou apenas campeão, mas o Supercampeão Pernambucano de Futebol, com uma equipe que até hoje os saudosistas e sobreviventes jamais esquecerão: Aníbal, Diogo e Sidney; Zequinha, Aldemar e Edinho; Lanzoninho, Rudimar, Faustino, Mituca e Jorginho. Dessa equipe quase sacralizada, Aníbal, Zequinha e Aldemar foram negociados com o Palmeiras, de São Paulo, sendo que os dois últimos chegaram à Seleção Brasileira, tendo Zequinha acrescido ao seu currículo o título de bicampeão do Mundo, integrando a equipe que conquistou a Copa em 1962, em Santiago do Chile.
Num exercício de memória, apesar dos grandes times que foram formados ao longo da história, uma equipe como aquela de 1957/58 não se fez mais, assim como não existe mais o Recife daquele fim de semana ensolarado, onde os que não gostavam de futebol podiam escolher um dos 26 cinemas que a cidade oferecia para o lazer da tarde domingueira. No Moderno, por exemplo, estava em cartaz o filme "Casa de Chá do Luar de Agosto", com Marlon Brando e Glenn Ford; já o São Luiz exibia "Tormenta sobre o Nilo", com Anthony Steel e Mary Ure. No Teatro Marrocos, o ator Lindberg Leite interpretava "As Mãos de Eurídice", de Pedro Bloch.
Já as notícias dos jornais davam conta do nascimento do primeiro filho da princesa Grace Kelly – o herdeiro do trono monegasco, Albert Alexandre Louis Pierre; falavam da separação do Xá da Pérsia, cuja esposa, a princesa Soraya, não conseguia gerar um filho para herdar o trono. Informavam também que o preço do café estava em alta, mas em compensação o dólar caía.
Só três anos depois vim conhecer Recife – e logo mais aqui ficar para residir e estudar. Foi então que a paixão pelo time tricolor se consolidou. Morei no Arruda – e via de perto os treinos da equipe no velho "açapão", que é como a imprensa denominava o acanhado estádio tricolor, com suas arquibancadas ainda de madeira. Participei de algumas "peneiras", vi meus ídolos de perto, deuses de carne e osso que só conhecia pelas ondas do rádio. Desde então, foram títulos conquistados, dias de honra e glória, estádio construído e consolidado – fases também difíceis que nunca levaram os tricolores a amarem menos o seu clube e sua história. Pois só um imenso amor à camisa das três cores poderia carregar para os estádios um público superior a 35 mil pessoas quando se disputava o campeonato da quarta divisão.
Pois bem, essa legenda do futebol brasileiro, esse clube querido e bem amado, completa 100 anos. De sua longa história, nascida sob o abrigo de um templo centenário no Pátio de Santa Cruz, o Brasil inteiro já escutou falar. E haverá de escutar ainda mais, porque estamos entrando para o segundo centenário com a certeza de que o nosso futuro será ainda mais rico de conquistas do que foi o nosso passado de vitórias.